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12/07/2026 às 06h59 Redação Você está aqui: Home / Crônica do Zezo Freittas Imprimir postagem

O Piauí do Faz de Conta

Existe um Piauí que aparece na propaganda. É moderno, tecnológico, cheio de obras, vídeos bem produzidos e discursos otimistas. Nesse Piauí, tudo parece caminhar para um futuro brilhante.

Mas existe outro Piauí.

É o da fila no hospital. Da estrada esburacada. Do jovem que vai embora porque não encontra oportunidade. Do pequeno empreendedor que luta para sobreviver. Do trabalhador que paga impostos e se pergunta, todos os meses, para onde vai tanto dinheiro.

Nos últimos anos, o debate sobre as contas públicas do Estado passou a girar em torno de empréstimos, aumento do endividamento e capacidade fiscal. Enquanto o governo afirma que os recursos financiam investimentos e garantem desenvolvimento, parlamentares de oposição questionam o crescimento da dívida e cobram mais transparência sobre os resultados desses financiamentos.

O problema não é apenas a dívida. Dívida pode financiar crescimento quando há planejamento, transparência e resultados concretos. O problema nasce quando o cidadão comum olha para sua realidade e não consegue enxergar essa transformação.

É aí que a propaganda encontra a vida real.

Enquanto isso, a Assembleia Legislativa parece viver uma paz invejável. Governo e ampla maioria dos deputados caminham quase sempre na mesma direção. O contraditório, que deveria fortalecer a democracia, muitas vezes soa tímido. Fiscalizar deixou de ser prioridade para muitos e passou a ser apenas uma palavra bonita nos discursos.

E quando chega o período eleitoral, o roteiro parece sempre igual.

Mudam os slogans.

Mudam as cores das camisas.

Mudam os jingles.

Mas os sobrenomes continuam.

Famílias inteiras ocupam espaços de poder há décadas. Pais, filhos, irmãos, esposas, sobrinhos... A política vai se parecendo cada vez mais com uma empresa familiar, onde o patrimônio principal não é uma fábrica, mas os votos.

E o eleitor?

Esse continua sendo lembrado de quatro em quatro anos.

Recebe promessas, tapinhas nas costas, abraços, sorrisos e fotografias. Depois volta à rotina de esperar por uma consulta, uma estrada melhor, um emprego ou uma oportunidade que nunca chega.

Também chama atenção a fragilidade da oposição. O papel de quem faz oposição não é apenas disputar eleições; é fiscalizar, questionar e apresentar alternativas. O cenário para 2026 ainda está em formação, com pré-candidaturas sendo discutidas e alianças em negociação. Quando a oposição parece mais preocupada em negociar espaços do que em oferecer um projeto diferente, o eleitor passa a sentir que está escolhendo apenas entre versões do mesmo sistema.

E talvez seja justamente aí que mora o maior problema.

Não é apenas quem governa.

É a sensação de que nada muda.

Que os grupos políticos se revezam, mas permanecem próximos do poder.

Que a máquina continua funcionando para si mesma.

Que o cidadão virou espectador de um teatro cujo final já parece conhecido.

O mais preocupante é que muita gente já se acostumou. Acha normal. Diz que política é assim mesmo. E quando a indignação vira conformismo, a democracia perde sua força.

Nenhum governo deveria ser tratado como dono do Estado. Nenhuma oposição deveria existir apenas para esperar sua vez de ocupar o poder. E nenhum eleitor deveria abrir mão do direito de cobrar, fiscalizar e perguntar.

Porque a democracia não morre apenas quando falta liberdade.

Ela também enfraquece quando sobra resignação.

O Piauí merece mais do que viver entre propagandas e disputas de grupos políticos. Merece um debate sério sobre educação, saúde, segurança, emprego, desenvolvimento regional e transparência.

No fim das contas, a pergunta continua simples.

Se tudo está tão bem quanto dizem, por que tanta gente ainda sente que vive tão mal?

Talvez essa seja a pergunta que mais incomoda.

E talvez seja justamente por isso que ela precise continuar sendo feita.

 

Por Zezo Freittas


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